Desde pequeno que ouvi meus pais dizerem que o importante no esporte é competir. É claro que isso não significa não tentar, apenas queriam me ensinar que perder faz parte do jogo. O problema é a forma como se perde. Se você compete cabisbaixo, aceitando que o adversário se imponha então você é mesmo um derrotado. Vencedores, mesmo quando perdem, perdem tentando, esforçando-se, doando-se enquanto há esperança.
Não acompanhei o grande Botafogo da década de 60. Quando meu pai começou a me levar ao estádio, foi bem no final da década de 80, quando o jejum estava sendo quebrado. Não vi um Botafogo de glórias, mas vi um Botafogo de brios. Sim, o Botafogo era um time de brios!
Ninguém em sã consciência diria que o time do Botafogo era melhor ou equiparado ao do Flamengo em 1989, penso que nem os jogadores achavam isso. Contudo, a garra do time em campo compensou essa inferioridade técnica. Lembro de um lance emblemático no segundo tempo daquele jogo em que o então lateral esquerdo rubro-negro, Leonardo, fazia uma carnaval no lado esquerdo da zaga alvinegra. Adiantou um pouco a bola ao entrar na área e foi surpreendido por um fulminante Luisinho Quintanilha que praticamente colocou todo o peso do corpo no chute, chegando a trombar forte com o adversário. Aquilo não era nada além de vontade de vencer! Aliás, neste campeonato, o vide de futebol do Vasco, Eurico, dissera antes do jogo que já havia comprado o chopp da festa, fato que foi tratado com deboche pelo Botafogo ao final da partida.
No ano seguinte, após tantos empates ridículos, o Botafogo já era virtual eliminado no Campeonato Carioca, mas conseguiu arrancar uma milagrosa vaga na final contra o então Campeão Brasileiro Vasco. O que se viu naquela partida foi o time glorioso correndo uma barbaridade, se expondo ao adversário inclusive, mas sem nunca desistir.
Em 1995, em jogo comum contra o Flamengo pelo Carioca, jogadores rubro-negros tentaram intimidar os alvinegros com dedos na cara e empurrões. O Botafogo não aceitou a imposição e o resultado foram 5 expulsões. Na semifinal do Brasileiro do mesmo ano, contra o Cruzeiro, já no final do jogo, o time relaxou e permitiu uma jogada mineira pela direita que resultou num cruzamento que foi cortado por Wilson Gottardo para escanteio. Lembro de nesse momento o capitão alvinegro esbravejar com a equipe. Dizer que aquele jogo não era brincadeira, era o passaporte para a final.
E o que dizer da final do Carioca de 1997? Quando o vascaíno Edmundo rebolou em tom provocativo diante dos jogadores alvinegros. Na mesma hora quase foi quebrado por um marcador alvinegro e no jogo seguinte teve de encarar os botafoguenses com sangue nos olhos.
Até mesmo no início da década passada, quando vi os times mais fracos do Botafogo, havia esse brio. O zagueiro Sandro não admitia nenhuma piadinha dos adversários sobre o Botafogo e chegou a ser expulso no último jogo do trágico rebaixamento de 2002 por fazer falta violenta no são paulino que debochava da situação alvinegra. Sem falar na porta do vestiário que destruiu de raiva.
Enfim, esse foi o Botafogo que me acostumei a ver. Não um time de muitas conquistas, mas um time que não aceitava provocação, não aceitava ser humilhado, não aceitava perder de bico calado.
Mas o que vejo no Botafogo de uns anos para cá é bem diferente. Vejo um jogador alvinegro sofrer falta violenta e ainda levar dedo na cara do adversário e o time ficar olhando. Vejo diretorias rivais zombarem do nosso clube e serem convidadas para almoçar às vésperas de jogo decisivo. Vejo os rivais ridicularizarem nosso estádio e ficar por isso mesmo. Vejo jornalistas diminuírem o clube e não haver resposta. Vejo os adversários fazerem gesto de choro e o time ficar olhando. Vejo o time sofrer uma humilhante goleada para o principal rival e o presidente do clube dizer que está orgulhoso.
É inadmissível que um adversário tripudie do Botafogo da forma como os jogadores do flamengo fizeram na última partida e ainda e sejam exaltados pelos alvinegros ao fim do jogo. É inadmissível que no dia seguinte os jogadores alvinegros estejam rindo como se nada tivesse acontecido.
Temos um grupo de jogadores canalhas? Não, não acredito nisso. Não acredito que este mesmo grupo de jogadores em outro clube grande não teriam esse comportamento. Penso que essa falta de brios dos jogadores é apenas um reflexo do seus comandantes, que tratam rivais como irmãos e o Botafogo como um clube de bairro que ganha o ano ao conquistar um campeonato estadual.
É triste. O Botafogo que me acostumei a ver não era vencedor de conquistas, mas tinha o mínimo de vergonha na cara!

